As dispersões no mundo pós-moderno
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melina.flores

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As dispersões no mundo pós-moderno

Texto muito interessante da Instrutora Sabrina Moehlecke, da Escola Copacabana.

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“Rámakrishna comparava a mente humana com um irriquieto macaco, que tivesse tomado álcool, tivesse sido picado por um escorpião e, ainda por cima, se lhe tivesse ateado fogo ao pelo! Isso somos nós…” DeRose

Por quanto tempo você consegue ficar concentrado em uma determinada atividade que realiza? Já passou pela situação em que começou a ler um livro e, sem que percebesse, alguns minutos depois já divagava sobre outros assuntos, perdido nos seus próprios pensamentos? Ou então foi assistir a uma aula ou palestra em que, depois de um tempo, sua mente começou a viajar e você se esqueceu até do que acontecia à sua volta? Ou ainda começou a conversar com alguém, mas estava tão preocupado com outro assunto que depois nem se recordava direito do que falaram?

Por que isso ocorre? Por que é tão fácil nos perdermos em devaneios? É claro que a aula, a conversa ou o livro que você escolheu para ler podem ser realmente desinteressantes. Contudo, alguns argumentam que isso é também um sinal dos nossos tempos modernos, ou melhor, pós-modernos, cada vez mais velozes, vertiginosos, onde o que é novo num dia já está obsoleto no dia seguinte. Já outros afirmam que, em maior ou menor grau, o ser humano sempre teve como desafio focar sua mente em uma única atividade, objeto, pessoa. Fenômeno recente ou não, o ponto central é que a mente humana tende à dispersão, busca novidades, distrações.

Um modo interessante de observar essa natureza humana é por meio dos contos e lendas presentes em quase todas as culturas, por mais diversas que sejam. Podem variar os personagens, os exemplos, o contexto, mas há um núcleo, uma estrutura básica nas histórias por meio da qual diversos antropólogos, como Claude Levi-Strauss, conseguiram identificar grandes questões comuns aos vários povos que habitam ou já habitaram nosso planeta. Recorro a uma dessas lendas e à sua simbologia arquetípica para refletir um pouco sobre nossa tendência à dispersão. Trata-se da lenda afro-americana Manawee, resgatada pela psicóloga junguiana Clarissa Pinkola Estés (1994), que começa assim…

Era uma vez um homem que foi cortejar duas irmãs gêmeas. Contudo, seu pai dizia que só poderia se casar com elas se conseguisse adivinhar seus nomes. Manawee tentava, mas não conseguia adivinhar os nomes das jovens. O pai das moças abanava a cabeça e mandava-o embora todas as vezes.
Um dia Manawee levou seu cachorro junto a uma das visitas de adivinhação e este percebeu que uma irmã era mais bonita que a outra e que a outra era mais delicada do que a primeira. Também naquele dia Manawee não conseguiu adivinhar os nomes das irmãs, mas o cachorro voltou à casa das jovens, enfiou a orelha por baixo da porta e ouviu as moças se chamarem pelos nomes. Descoberto o segredo, voltou correndo para passar a informação a seu dono.
No meio do caminho, porém, sentiu chegar do meio do mato um forte aroma de noz-moscada fresca. Não havia nada que adorasse mais do que noz-moscada. Por isso, se desviou um pouco do caminho e degustou a bela torta que estava em cima de uma tora. De repente, se lembrou de sua tarefa, mas infelizmente já havia esquecido os nomes das moças.

Voltou então à casa das gêmeas. Mais uma vez ele ouviu seus nomes. Deu pulos de alegria e voltou correndo pelo caminho em direção à casa de Manawee quando encontrou vários outros cachorros se divertindo e tomando banho em um lago próximo. O cachorrinho não resistiu e foi juntar-se a eles. Passado um tempo, resolveu voltar para casa. Tentou pensar nos nomes das moças, mas ele os havia esquecido de novo.

O cão tornou a voltar correndo para a casa das jovens e dessa vez as irmãs estavam se preparando para casar. “Ah, não!”, pensou, “quase não tenho mais tempo.” E, quando as irmãs se chamaram pelo nome, ele guardou os nomes na mente e saiu em disparada, com a determinação resoluta de que nada mais iria impedi-lo. O cãozinho vislumbrou um grande osso deixado perto do caminho, mas ignorou. Pareceu sentir o aroma de noz-moscada no ar, mas continuou correndo na direção do seu dono. No entanto, ele não contava com a possibilidade de encontrar com um homem estranho no meio do mato que de repente saltou à sua frente, agarrou-o pelo pescoço e o sacodiu a ponto de seu rabo quase cair.

– Diga-me o nome das moças para que eu possa conquistá-las! – gritava o estranho o tempo todo. O cachorro achou que ia desmaiar, mas lutou com bravura. Ele rosnou, arranhou, esperneou e, finalmente, mordeu o estranho. Então o estranho fugiu pelo mato e o cachorrinho prossegiu, meio mancando, até encontrar sua casa. Aproximou-se de Manawee, claudicante, mas feliz da vida e lhe contou toda a história e o nome das moças. Manawee correu até a casa das moças com o cachorrinho nos ombros. Quando chegou até o pai com os nomes das filhas, as gêmeas receberam Manawee completamente vestidas e prontas para casarem com ele. Elas haviam estado à sua espera o tempo todo.

O interessante do uso de contos como formas de transmissão do conhecimento, geralmente por meio da oralidade, é a facilidade com que podem ser difundidos e a liberdade de interpretações que se pode fazer deles. No caso da lenda de Manawee, esta nos remete a culturas e sociedades que valorizam não apenas uma forte relação com a natureza, mas também as dimensões mais instintivas e intuitivas do ser humano, que podem ser acessadas em determinadas situações de nossas vidas. É um conhecimento que todos têm em potencial dentro de si e que pode ser desenvolvido se utilizadas as técnicas corretas.

Em termos arquetípicos, a figura do cachorro simboliza o caráter mais intuitivo do indivíduo, ou seja, uma forma de conhecimento que não passa pelo intelecto. O personagem de Manawee, racionalmente, busca adivinhar o nome das irmãs e falha. Se continuasse tentando, talvez até conseguisse adivinhar corretamente os nomes por esta via. Por outro lado, ao buscar acessar essa informação por meio da intuição, a resposta lhe vem de modo mais imediato. No entanto, ainda é preciso vencer as distrações e dispersões que aparecem ao longo do caminho.

Na lenda de Manawee, o cachorro tem dificuldade em transmitir o nome das irmãs para seu dono. Ele consegue acessar esse conhecimento, mas ainda precisa vencer alguns obstáculos para conseguir guardar essa informação por mais tempo até que esta possa ser repassada. Primeiramente, é seduzido pelos sentidos do olfato e do paladar, com uma deliciosa torta. Em seguida, se distrai em meio ao prazer de brincar com outros cães. As mais diversas dispersões facilmente lhe desviam da sua meta.

Contudo, a história também mostra como transpor esses obstáculos e acessar o conhecimento por via da intuição. É por meio da disciplina, persistência, coragem e autossuperação que o cachorro consegue transmitir as informações às quais tem acesso. As distrações continuam a aparecer no seu percurso, mas cada vez ele consegue vencê-las com mais facilidade. Até que, ao enfrentar seu último obstáculo, que testa sua coragem e sua capacidade de superar-se, ele alcança seu objetivo. Não é por acaso que a lenda termina com a cena de um casamento, de uma união, integração, pois este é o objetivo final de todo esse processo: ultrapassar uma visão fragmentada e incompleta, para atingir uma consciência mais ampliada de si, do mundo e do que se quer como propósito de vida.

Sabrina Moehlecke

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